Elos & aros
Perdi minha aliança de casamento há quatro anos. Um incidente que eu diria triste, embora remediável. Poderia fazer outra, uma substituta que perderia a originalidade das marcas e lembranças de uma fase importante de minha vida.
O tempo de namoro foi o que eu havia sonhado e se transformou em realidade.
Era o princípio dos anos 70: Beatles, bailes, cinema, moto e muita “gamação”.
Da sacada da sala de aula do meu colégio, atendi ao sinal do meu namorado que descia a Rua da Glória com a moto desligada. Fugi do colégio, como fizera de outras vezes, para encontrar-me com ele. Naquela manhã, ele me levou à loja de um joalheiro na Av. Francisco Sá.
Muito tímida, experimentei vários tipos de aros, que pareciam de lata. Escolhemos um como modelo de nossa aliança. Lembro-me que pedi a gravação do primeiro nome em vez das iniciais como era o costume.
É uma sensação gostosa a lembrança daquela manhã. Ressurge aquela adolescente apaixonada e correspondida que vivia intensamente aquele momento, desligada do resto do mundo. Não me lembro de ter lembrado de contar para alguém o ocorrido.
Éramos os personagens principais do ritual do noivado, o primeiro acontecimento de duas famílias grandes e conservadoras, ainda que dispensássemos tais formalidades. Valeu.
Assim como no casamento compartilhamos e brindamos. Uma concessão aos amigos e parentes de participarem de nossa felicidade. Nossa vontade mesmo era de estarmos a sós, mas todo o tempo ainda era pouco.
E assim tem sido. Fizemos questão de aproveitar as oportunidades que ficamos a sós e nos proporcionamos os momentos de jogar conversa fora, afora o tempo das três “crianças”, família e compromissos.
A aproximação do dia 04 de maio de 1999, quando comemoraremos os 25 anos de casamento, tem feito me lembrar da aliança original, desejando-a muito. Perguntei ao Mário, um bombeiro conhecido, se o anel que havia caído no vaso sanitário do meu banheiro, há quase cinco anos, teria sido despejado no rio Grande, que é para aonde vai todo o esgoto da cidade. E ele foi profético: “Sua aliança continua no fundo do vaso. Só o que tem a fazer é meter a mão dentro do vaso e retirá-la”.
Incrédula, pelo sim e pelo não, fiz o que ele havia dito.
A emoção que senti ao perceber a aliança com o toque da ponta do meu dedo foi igual ou maior, não sei, que a emoção daquela manhã no joalheiro.
Com certeza, na comemoração das Bodas de Prata, todas as recordações, fatos e marcas serão tão originais como tem sido a nossa vida.
Diamantina, 25 de janeiro de 1999.
Observação: não houve comemoração.
Imagino quanta "M" essa aliança viu passar nestes anos da vida, literalmente "privada".
ResponderExcluirAgora recuperada ela só vai ver coisas boas pelos próximos 25 anos.
Ela só não pode é cair do dedo estando na garupa a 100km/h...
Felicidades!
Há controvérsias.
ResponderExcluirPrometi retirá-la se o piloto esquecer da legitimidade da garupa.
Aproveito para agradecer-lhe a atenção.Você é o primeiro "seguidor" .